A penca de balangandãs apareceu nas minhas pesquisas há algum tempo e, desde então, tenho me dedicado à sua simbologia e beleza. Ela inclusive inspirou uma das pulseiras da nossa coleção.
Na minha última viagem a Barcelona, me indicaram o mercado Els Encants, uma versão gigante da nossa feira da marreta em Goiânia.

Depois de muito andar, encontrei uma banca que ainda não tinha visto e, ali, estava uma penca de balangandãs. Trouxe comigo e ela acabou fazendo parte do ensaio da nossa última coleção.
Pra trazer mais contexto sobre essa conexão com a Oyewá, convidei a Cynthia Mariah, minha mentora e referência no estudo das joias crioulas, para escrever este artigo.
Fiquem com o texto da Cynthia.
Se fizer sentido, comentem e compartilhem.
Su
A Cosmovisão dos Balangandãs
Por Cynthia Mariah
Os balangandãs, muitas vezes reduzidos a simples adornos pelos olhares superficiais, são peças que guardam significados que ultrapassam sua forma e estética. Joias que contam e guardam histórias. Objetos que respiram fé, identidade e memória. São narrativas que nascem da experiência das joias afro-brasileiras e dos corpos que as sustentaram, especialmente das negras crioulas dos séculos XVIII e XIX, que transformaram esses adornos em símbolos de autonomia, proteção e cosmologia. Cada balangandã, com seus ex-votos, amuletos, simbologias e ligações cosmológicas, carrega uma intenção específica e individual, uma devoção particular, um desejo sussurrado ou uma força evocada. Eram compreendidos como extensões dos mundos espirituais que atravessavam o cotidiano das mulheres negras no Brasil.
Em cada peça, há uma energia que se mistura ao corpo que a recebe, criando uma ponte entre pessoa, ancestralidade e território. Quando observamos os balangandãs nas fotografias antigas, nas pinturas e nos relatos da época, percebemos que eles expressavam mais do que riqueza material: expressavam existência e resistência. As negras crioulas dos séculos XVIII e XIX, muitas libertas e trabalhadoras de ganho, usavam-nos não apenas para enfeitar-se, mas para afirmar-se diante de uma sociedade que buscava constantemente apagar suas presenças. Ao carregar seus balangandãs, elas carregavam também suas histórias, suas religiosidades, suas dores e seus saberes
O corpo era, para elas, um território de disputa e, ao mesmo tempo, suas ligações cosmológicas. O uso das joias crioulas, especialmente dos balangandãs, tornou-se uma forma de reapropriação simbólica do próprio corpo e de reafirmação de dignidade. Nesses adornos estavam os elementos africanos que se ressignificam, sobreviveram à travessia do Atlântico e ao processo violento de escravização. Assim, a estética nunca se separou da espiritualidade. Essas mulheres não usavam os balangandãs apenas porque eram belos, mas porque eram composições que firmavam sua existência.
O tilintar dos seus balangandãs anunciava sua presença pelas ruas firmando suas competências mercantis; esse som carregava significados profundos. Era o som da circulação da economia conduzida por mulheres negras. Era o som da força de mulheres que sustentavam não só a si e suas famílias, mas comunidades. Era o som de quem se movimentava entre mundos, negociando com brancos e negros para garantir sua dignidade e a dos seus iguais. Seu tilintar era uma denúncia e uma afirmação: denunciava a desigualdade racial e de gênero da época, ao mesmo tempo em que afirmava a capacidade de resistência e construção econômica e social gerida por mulheres negras em meio ao caos do período colonial-imperial.
Os balangandãs, enquanto joias crioulas, não eram produzidos aleatoriamente. Cada símbolo tinha uma função, podendo ser eles de proteção, fertilidade, abertura de caminhos, saúde, prosperidade, vínculo com a ancestralidade, etc. Ao escolher seus pendentes, cada mulher selecionava também quais energias desejava carregar consigo. Era uma composição pessoal, intimamente conectada à sua história, ao seu destino e à sua cosmologia. Por isso, nenhuma peça era igual à outra. Cada conjunto era uma assinatura, uma narrativa, um texto não escrito, uma devoção movente.

Esses adornos tinham papel central nas disputas simbólicas e políticas da época, onde essas mulheres, ao conquistarem autonomia financeira, circulavam pelas cidades esbanjando seus status e suas hierarquias ao se apresentarem com vestes luxuosas e exuberantes, incomodavam profundamente a elite branca. Todo esse enfrentamento se expressava em leis de proibição, nas tentativas de regular a circulação dessas entre outros negros que desejassem expor em seus trajes sua condição de ascensão econômica. Nos registros dos viajantes europeus descreviam essas mulheres com um misto de fascínio e reprovação. Cada balangandã, portanto, tornava-se também uma arma política, era uma forma de marcar território dentro de uma sociedade que tentava negar-lhes qualquer espaço de poder.
Nas festas, missas, procissões e ritos religiosos, os balangandãs ganhavam ainda mais força. Dentro das irmandades pretas das igrejas católicas, esses adornos eram usados com orgulho e determinador hierático pelas mulheres que ocupavam cargos importantes e realizavam obrigações espirituais, assim como nos terreiros. Os balangandãs dialogavam com as cosmovisões africanas, misturando elementos de várias nações e tradições. Assim, as joias crioulas revelam a engenhosidade cultural que essas mulheres desenvolveram ao reconstruir seus mundos espirituais e de preservação cultural e identitária em solo brasileiro.

Os balangandãs também funcionavam como arquivos que registravam passagens de vida. Uma mulher podia inserir novos amuletos segundo as lutas que enfrentava, os filhos que perdia, os desejos que alcançava ou os caminhos que abria. Era uma narrativa em permanente construção, a biografia de uma mulher escrita no metal, no peso, no som e no brilho. Eles guardavam o que não podia ser escrito nos documentos oficiais, muitas vezes eram negados às populações negras. Por meio dos balangandãs e suas joias guardavam as memórias que os arquivos da branquitude nunca quiseram registrar.
A estética exuberante das joias crioulas, compostas por ouro, prata, contas, correntes e pendentes múltiplos, refletia também a complexidade cultural de mulheres que as usavam como forma de proteção e resistência. Elas eram, simultaneamente, africanas, brasileiras, diaspóricas, cosmopolitas e tradicionais. Por meio dos balangandãs, afirmavam sua multiplicidade e recusaram seu apagamento, por isso ainda as temos tão presentes. O corpo de uma mulher negra enfeitada por suas joias tornava-se um manifesto vivo: um corpo-político que carregava mundos, que resiste, que existe e que insiste.

Hoje, quando olhamos para os balangandãs e buscamos compreendê-los em sua profundidade, percebemos que eles são mais do que heranças estéticas. São portais. São mapas afetivos. Tecnologias ancestrais que registram, protegem e comunicam. São testemunhos da história de mulheres que resistiram e que, apesar de todas as perdas, reinventaram seu modo de existir. Cada pingente é um fragmento de uma narrativa que a branquitude não conseguiu destruir.
Por isso, podemos afirmar que os balangandãs atravessaram séculos e podem hoje ser considerados arquivos patrimoniais da diáspora brasileira. Eles preservam memórias, saberes, espiritualidades e resistências. São objetos que falam, que vibram, que lembram o que a História tentou calar. E, ao mantê-los presentes, continuamos afirmando a força das mulheres negras que, com seus corpos adornados, construíram cidades, comunidades, cosmologias e futuros, sendo verdadeiras arquitetas sociais.
A Cosmovisão dos Balangandãs
A penca de balangandãs apareceu nas minhas pesquisas há algum tempo e, desde então, tenho me dedicado à sua simbologia e beleza. Ela inclusive inspirou uma das pulseiras da nossa coleção.

Na minha última viagem a Barcelona, me indicaram o mercado Els Encants, uma versão gigante da nossa feira da marreta em Goiânia.
Depois de muito andar, encontrei uma banca que ainda não tinha visto e, ali, estava uma penca de balangandãs. Trouxe comigo e ela acabou fazendo parte do ensaio da nossa última coleção.
Pra trazer mais contexto sobre essa conexão com a Oyewá, convidei a Cynthia Mariah, minha mentora e referência no estudo das joias crioulas, para escrever este artigo.
Fiquem com o texto da Cynthia.
Se fizer sentido, comentem e compartilhem.
Su
A Cosmovisão dos Balangandãs
Por Cynthia Mariah
Os balangandãs, muitas vezes reduzidos a simples adornos pelos olhares superficiais, são peças que guardam significados que ultrapassam sua forma e estética. Joias que contam e guardam histórias. Objetos que respiram fé, identidade e memória. São narrativas que nascem da experiência das joias afro-brasileiras e dos corpos que as sustentaram, especialmente das negras crioulas dos séculos XVIII e XIX, que transformaram esses adornos em símbolos de autonomia, proteção e cosmologia. Cada balangandã, com seus ex-votos, amuletos, simbologias e ligações cosmológicas, carrega uma intenção específica e individual, uma devoção particular, um desejo sussurrado ou uma força evocada. Eram compreendidos como extensões dos mundos espirituais que atravessavam o cotidiano das mulheres negras no Brasil.
Em cada peça, há uma energia que se mistura ao corpo que a recebe, criando uma ponte entre pessoa, ancestralidade e território. Quando observamos os balangandãs nas fotografias antigas, nas pinturas e nos relatos da época, percebemos que eles expressavam mais do que riqueza material: expressavam existência e resistência. As negras crioulas dos séculos XVIII e XIX, muitas libertas e trabalhadoras de ganho, usavam-nos não apenas para enfeitar-se, mas para afirmar-se diante de uma sociedade que buscava constantemente apagar suas presenças. Ao carregar seus balangandãs, elas carregavam também suas histórias, suas religiosidades, suas dores e seus saberes
O corpo era, para elas, um território de disputa e, ao mesmo tempo, suas ligações cosmológicas. O uso das joias crioulas, especialmente dos balangandãs, tornou-se uma forma de reapropriação simbólica do próprio corpo e de reafirmação de dignidade. Nesses adornos estavam os elementos africanos que se ressignificam, sobreviveram à travessia do Atlântico e ao processo violento de escravização. Assim, a estética nunca se separou da espiritualidade. Essas mulheres não usavam os balangandãs apenas porque eram belos, mas porque eram composições que firmavam sua existência.
O tilintar dos seus balangandãs anunciava sua presença pelas ruas firmando suas competências mercantis; esse som carregava significados profundos. Era o som da circulação da economia conduzida por mulheres negras. Era o som da força de mulheres que sustentavam não só a si e suas famílias, mas comunidades. Era o som de quem se movimentava entre mundos, negociando com brancos e negros para garantir sua dignidade e a dos seus iguais. Seu tilintar era uma denúncia e uma afirmação: denunciava a desigualdade racial e de gênero da época, ao mesmo tempo em que afirmava a capacidade de resistência e construção econômica e social gerida por mulheres negras em meio ao caos do período colonial-imperial.
Os balangandãs, enquanto joias crioulas, não eram produzidos aleatoriamente. Cada símbolo tinha uma função, podendo ser eles de proteção, fertilidade, abertura de caminhos, saúde, prosperidade, vínculo com a ancestralidade, etc. Ao escolher seus pendentes, cada mulher selecionava também quais energias desejava carregar consigo. Era uma composição pessoal, intimamente conectada à sua história, ao seu destino e à sua cosmologia. Por isso, nenhuma peça era igual à outra. Cada conjunto era uma assinatura, uma narrativa, um texto não escrito, uma devoção movente.
Esses adornos tinham papel central nas disputas simbólicas e políticas da época, onde essas mulheres, ao conquistarem autonomia financeira, circulavam pelas cidades esbanjando seus status e suas hierarquias ao se apresentarem com vestes luxuosas e exuberantes, incomodavam profundamente a elite branca. Todo esse enfrentamento se expressava em leis de proibição, nas tentativas de regular a circulação dessas entre outros negros que desejassem expor em seus trajes sua condição de ascensão econômica. Nos registros dos viajantes europeus descreviam essas mulheres com um misto de fascínio e reprovação. Cada balangandã, portanto, tornava-se também uma arma política, era uma forma de marcar território dentro de uma sociedade que tentava negar-lhes qualquer espaço de poder.
Nas festas, missas, procissões e ritos religiosos, os balangandãs ganhavam ainda mais força. Dentro das irmandades pretas das igrejas católicas, esses adornos eram usados com orgulho e determinador hierático pelas mulheres que ocupavam cargos importantes e realizavam obrigações espirituais, assim como nos terreiros. Os balangandãs dialogavam com as cosmovisões africanas, misturando elementos de várias nações e tradições. Assim, as joias crioulas revelam a engenhosidade cultural que essas mulheres desenvolveram ao reconstruir seus mundos espirituais e de preservação cultural e identitária em solo brasileiro.
Os balangandãs também funcionavam como arquivos que registravam passagens de vida. Uma mulher podia inserir novos amuletos segundo as lutas que enfrentava, os filhos que perdia, os desejos que alcançava ou os caminhos que abria. Era uma narrativa em permanente construção, a biografia de uma mulher escrita no metal, no peso, no som e no brilho. Eles guardavam o que não podia ser escrito nos documentos oficiais, muitas vezes eram negados às populações negras. Por meio dos balangandãs e suas joias guardavam as memórias que os arquivos da branquitude nunca quiseram registrar.
A estética exuberante das joias crioulas, compostas por ouro, prata, contas, correntes e pendentes múltiplos, refletia também a complexidade cultural de mulheres que as usavam como forma de proteção e resistência. Elas eram, simultaneamente, africanas, brasileiras, diaspóricas, cosmopolitas e tradicionais. Por meio dos balangandãs, afirmavam sua multiplicidade e recusaram seu apagamento, por isso ainda as temos tão presentes. O corpo de uma mulher negra enfeitada por suas joias tornava-se um manifesto vivo: um corpo-político que carregava mundos, que resiste, que existe e que insiste.
Hoje, quando olhamos para os balangandãs e buscamos compreendê-los em sua profundidade, percebemos que eles são mais do que heranças estéticas. São portais. São mapas afetivos. Tecnologias ancestrais que registram, protegem e comunicam. São testemunhos da história de mulheres que resistiram e que, apesar de todas as perdas, reinventaram seu modo de existir. Cada pingente é um fragmento de uma narrativa que a branquitude não conseguiu destruir.
Por isso, podemos afirmar que os balangandãs atravessaram séculos e podem hoje ser considerados arquivos patrimoniais da diáspora brasileira. Eles preservam memórias, saberes, espiritualidades e resistências. São objetos que falam, que vibram, que lembram o que a História tentou calar. E, ao mantê-los presentes, continuamos afirmando a força das mulheres negras que, com seus corpos adornados, construíram cidades, comunidades, cosmologias e futuros, sendo verdadeiras arquitetas sociais.